Ontem eu me deparei com um texto muito interessante (em inglês), escrito por Peter Bregman da Bregman Partners, explicando porque ele devolveu o seu recém comprado iPad, após apenas uma semana de uso. Bem, eu comprei o meu iPad há pouco mais de uma semana e achei o texto interessantíssimo porque o maior motivo que levou Peter a devolver o iPad não foi nenhum defeito ou deficiência tecnológica no aparelho em si, mas sim um “defeito” na sua própria pessoa. Vale a pena ler e repensar algumas coisas nas nossas vidas. Segue o texto traduzido logo abaixo.

Porque eu devolvi o meu iPad
por Peter Bregman (link)

Pouco mais de uma semana após comprar o meu iPad, eu o devolvi para a Apple. Mesmo tendo algumas falhas, o problema não estava exatamente no iPad. O problema estava em mim.

Eu gosto de tecnologia, mas eu não sou uma pessoa que compra sempre a primeira versão, o quanto antes, de novos aparelhos e gadgets, eu espero as novas versões para que sejam corrigidas as possíveis falhas de projeto que possam ter passado despercebidas. Eu esperei pelo iPod de segunda geração, esperei pelo iPhone de segunda geração e esperei pelo Macbook Air de segunda geração.

Mas o iPad é diferente. Tão elegante, tão legal, tão transformador… E, eu pensei, se ele é tão similar ao iPhone, a maioria das possíveis falhas de projeto que poderiam vir a existir já deveriam estar corrigidas.

Assim, pela primeira vez na minha vida, me encontrei esperando por duas horas em uma fila na frente da loja da Apple para adquirir o meu iPad 3G, bem no meio da tarde do dia do seu lançamento.

Fiz as configurações iniciais do aparelho na própria loja da Apple porque eu queria ter certeza que eu já poderia começar a usá-lo no momento em que eu o comprasse. E eu o usei bastante. O levava para qualquer lugar que eu fosse. Tão pequeno, tão leve, por que não trazê-lo junto comigo?

Nele eu acessava o meu e-mail, escrevia artigos utilizando o aplicativo Pages, assistia a episódios da série Weeds no Netflix, lia notícias, verificava as condições e previsões climáticas, verificava o estado do tráfego, etc. É claro que eu mostrava orgulhosamente a minha nova aquisição a quem demonstrava um mínimo de interesse. (Isso por si só poderia gerar um novo texto. Eu mostrava o iPad 3G para qualquer um simplesmente por possuí-lo, como se fosse uma conquista. Por quê? Eu não criei o iPad, eu simplesmente comprei um!)

Não demorou muito para que eu me deparasse com o lado negro desse revolucionário aparelho: ele é de fato maravilhoso.

É tudo muito fácil, muito acessível, é rápido, a sua bateria dura muito. Claro que há alguns problemas, mas nada que chame muito a atenção. Na maior parte do tempo, eu conseguia fazer tudo o que eu queria e foi justamente isso que acabou se mostrando um grande problema.

É claro que eu quero assistir a um episódio de Weeds antes de ir dormir. Mas será que eu deveria? É realmente difícil de parar tendo visto apenas um episódio, e duas horas depois, me pego entretido, mas bem cansado. Mas será que eu estou mesmo melhor assim? Ou será que eu estaria melhor tendo sete horas de sono ao invés de apenas cinco?

A grande sacada do iPad é que ele é uma espécie de computador acessível em qualquer lugar, a qualquer hora. No metrô, no hall do elevador esperando o dito-cujo chegar, no taxi indo para o aeroporto, etc. Qualquer momento se torna um momento em potencial para se usar o iPad. O iPhone consegue fazer as mesmas coisas, mas não da mesma forma. Quem que quer ver um filme naquela telinha pequena do iPhone?

Então, por que o iPad se mostrou um problema? Do jeito que eu falo ele parece super produtivo. De fato é, pois a cada minuto extra eu me encontrava produzindo ou consumindo.

Mas algo – mais do que apenas a quantidade de horas que eu durmo, apesar de isso também ser crítico – foi perdido no tempo. Algo valioso demais para se perder.

Tédio.

Ficar entediado é uma coisa muito importante, um estado de espírito que devemos buscar. Uma vez que ficamos entediados, a nossa mente começa a vagar, buscando alguma coisa excitante, alguma coisa interessante para se estabelecer. E é justamente aí que a criatividade aparece.

As minhas melhores idéias vêm à mim quando eu não estou produzindo nada:

  • Quando eu estou correndo, mas não estou ouvindo nada no meu iPod;
  • Quando eu estou sentado, sem fazer nada, apenas esperando por alguém;
  • Quando estou deitado na minha cama esperando que o sono venha;

Esses momentos “perdidos” são vitais.

Existem momentos em que nós, mesmo inconscientemente, organizamos as nossas mentes, colocamos sentido nas nossas vidas e ligamos os pontos. Existem momentos ainda em que falamos com nós mesmos e outros que ouvimos. Perder esses momentos, substituí-los com tarefas e eficiência, é um erro. O pior de tudo é que nós não apenas os perdemos, nós os jogamos fora.

“Mas isso não é um problema com o iPad”, falou o meu irmão Anthony – ao qual sou compelido a mencionar que está produzindo um filme chamado “Meu Irmão Idiota”. “Isso é um problema seu. Você tem apenas que não usá-lo tanto!”

Sim, culpado. O problema estava comigo. Eu não consigo simplesmente não usá-lo. E, infelizmente, ele está sempre ali, disponível! E, depois de ponderar, eu resolvi devolvê-lo. Pronto, problema resolvido.

Essa experiência foi bem proveitosa para me ensinar o real valor do tédio. Agora eu estou bem mais consciente, de forma a utilizar melhor esses momentos extras para deixar a minha mente fluir em idéias e pensamentos.

Mais ou menos na mesma época que eu devolvi o meu iPad, percebi que a minha filha de oito anos, Isabelle, estava inacreditavelmente ocupada do momento que ela chegava da escola até a hora que ela ia para a cama. Tomar banho, leitura, treino de violão, jantar, dever de casa, ela não parava um momento até eu lhe falar para ir dormir. Uma vez na cama, ela tentava falar comigo, mas eu, preocupado com o pouco sono que ela poderia ter, apressava esse momento e a impelia a dormir logo.

Agora nós temos um novo ritual, um que tem se tornado a minha parte favorita do dia. Eu a tenho colocado para dormir 15 minutos mais cedo do que eu a colocava antes. Ela deita na cama, eu deito do lado dela e nós simplesmente conversamos. Ela fala sobre as coisas que aconteceram durante o seu dia, sobre coisas que a preocupam, coisas que ela está curiosa ou apenas sobre os seus pensamentos. Eu a ouço e faço perguntas. Nós rimos, e as nossas mentes simplesmente devagam…

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E você? O que acha dos momentos de tédio? Será que são mesmo boas oportunidades para deixar as nossas idéias fluírem? Deixe um comentário com a sua opinião!

About The Author

Empresário (CEO da agência de comunicação PIBIT) e consultor de tecnologia da informação e comunicação digital, é o fundador e editor do blog Produzindo.net. Se dedica a essa atividade pela paixão que tem pelo lema que tomou para a sua vida: “aprender para ensinar”.

  • http://www.doravante.com Lucas Repolês

    Que legal essa mensagem. Me fez refletir :) Parabéns pela tradução e pela divulgação. Parabéns pelo blog. Gosto muito!

  • Pingback: Tweets that mention A importância do tédio em nossas vidas | Produzindo.net -- Topsy.com

  • http://www.ferramentasblog.com/ Marcos Lemos (@hordones)

    Eu não devolveria um iPad – nem tenho um ainda, mas pretendo. rs!

    Fato é que estamos mesmo cada vez mais cheios de atividades que nos ocupam muitas vezes de coisas sem a menor importância. temos um desafio pela frente que é aprender a lidar com as cada vez maiores distrações que o mundo modernos nos oferece. Sou fascinado com tecnologia, viciado em internet, celulares etc, mas não podemos esquecer das relações humanas concretas, do contato físico, da diversão ou do puro prazer de não fazer nada.

    Parabéns pelo excelente artigo/post e pelo ótimo Blog.

  • http://ideia.me Jônatas Davi Paganini

    Que legal!

    Esta é uma reflexão que realmente deve existir na vida. Eu comprei meu iPad e também sinto que tenho gastado um grande tempo com o novo ‘filho’. :D

    O importante é pensar se isto realmente me faz feliz?!

    Parabéns Bernardo!

  • Edson de Lima

    Uma parte que me chamou a atenção do texto foi a coragem do autor em tomar a decisão e se apegar a ela.
    E concordo muito com ele quanto ao que fez, especialmente ao refletir no que estava fazendo com a filha.

  • http://Www.tarrask.com/blog Alex Luna

    Mas voce pode estar super ocupado somente com uma biblioteca. Ou com um notebook.

    O problema maior, que voce menciona e eh muito importante, eh que nos estamos tao obcecados com produtividade que esquecemos de relaxar, nos distrair, divagar.

    Ate o simples ato de fer televisao (que antigamente era idiotizante e improdutivo) agora tem cobrancas, limites, objetivos. Voce se sente obrifado a ler tudo, ver tudo, saber de tudo. Aih reside o problema.

    E o ipad leva a culpa, as vezes sem merecer. Eu espero que o meu me impeca de me distrair com mil atividades e me permita divagar mais rapidamente, se eh que a incoerencia eh possivel.

    Otimo texto.

  • http://www.meudaybook.blogspot.com Yasmin

    Adorei a questão levantada. Obrigada pelo conteúdo divulgado. Adorei o blog. Abçs

  • http://www.wikipt.blogspot.com Felipe Rodrigues

    É super engraçado, eu estava pensando isso outro dia. Sou militar e temos que ficar de “vigia” por duas horas, durante quatro vezes ao dia. São momentos que da para pensar sobre tudo na vida, não só sobre a minha mas sobre o mundo, de lá tenho tenho pensado tantas coisas que são produtivas na minha vida. E é um tédio ficar duas horas sem poder fazer nada…então o que meu cérebro faz? Simplesmente penso nas coisas da minha vida.

    Obrigado pela tradução!

  • http://www.produzindo.net/ Bernardo Pina

    Fico muito feliz que todos tenham gostado do texto. Vale lembrar que eu não sou o autor original, eu apenas o traduzi do inglês para o português e divulguei no Produzindo. ;)

    Achei que valia a pena publicar porque geralmente não damos a devida importância aos nossos momentos de tédio. =)

  • http://www.escritosideologicos.com Ana Karenina

    Olá Bernardo

    Valeu muito a pena sim a tradução, adorei o texto e as análises e ponderações feitas nele, me fez refletir bastante sobre minha vida e sobre minha postura perante ela e me vi realmente nele várias vezes, pensando bem me ocupo muito mesmo com muita coisa, acho que poucas vezes me dei ao luxo de não fazer nada, fico entendiada quando falta luz na minha casa e eu não tenho o que fazer, essa sensação de impotência diante da vida é que eu não gosto, deve ser por isso que evito ficar parada demais.

    Gostei tanto deste texto que destaquei ele no meu blog como o melhor post da semana, espero que as pessoas leiam ele e pensem melhor no rumo que estão dando pra suas vidas.

    Valeu mesmo! Até próxima!

    Um Abraço!

    • http://www.produzindo.net/ Bernardo Pina

      Muito obrigado pelo destaque, Ana. Fico muito feliz de ter conseguido compartilhar uma mensagem tão legal com os nossos leitores. Mais ainda, fico feliz de ter conseguido fazê-los pensar sobre as suas vidas. =)

      Abraço!

  • Fabíola Vanessa

    Adorei a reflexão! É super importante permitir os momentos de “tédio” em nossa vida, conectar-se frequentemente nos priva de muitas coisas, de relações reais, de planejamentos reais, e construções reais! São oportunidades ímpares para nos conhecermos melhor e fortalecer laços com os que mais amamos… viu o que aconteceu com ele e a filha? Obrigada pela tradução e divulgação do texto!

  • http://www.escrevendoonthebeach.blogspot.com/ Mahina

    Apoiado! Viva o tédio. Super produtivo, principalmente no que diz respeito a ideias inovadoras e reviravoltas em problemas mirabolantes. Abraço, Bernardo!

  • http://www.amochileira.blogspot.com Cátia

    Adorei! A tradução é ótima. O tema realmente memorável, pena que nem todo mundo conhece o valor dessa introspecção e desses momentos “perdidos”. Parabéns pelo blog.

  • Pingback: O segundo post « Bruno Luz

  • Rafael

    Oi amigo. Realmente muito interessante a leitura. Uma pena o mundo estar corrido como está.

    Mas já que você falou em reflexão, não acha que estaria na hora de refletir de verdade e talvez trocar esses livros da sessão de leitura recomendada?

    Pra não dizer que não tento ajudar aqui vão duas recomendações:
    http://www.scribd.com/doc/7072452/Domenico-de-Masi-O-Ocio-Criativo
    http://www.scribd.com/doc/3211348/Daniel-Quinn-Ismael

    O primeiro fala, bem, do Ócio e ele é de 2000, ou seja, muito antes do iPad, hehe.
    O segundo é uma reflexão sobre a condição humana de criação de mitos, como o mito do sucesso, do dinheiro e alguns outros.

    Se é pra refletir, tão aí 2 bons inícios.

    Abs

  • http://www.ivandemarco.com.br Ivan de Marco

    Parabéns pela tradução e pelo texto. Procativo e atual.

    Sou obrigado a DISCORDAR de muita coisa no texto e também de muuuuitos dos que comentaram aqui.

    1 – Na minha opinião, o problema do Peter Bregman chama-se Gerenciamento de Tempo. Esse cara sabe que tem só 24 horas por dia e não tá conseguindo fazer tudo o que ele acha que tem que fazer. Fato comum. Isso ocorre principalmente porque já faz alguns anos que recebemos todo dia uma quantidade muito maior de informação do que o nosso cérebro consegue processar conscientemente e isso so vai piorar na medida em que esse volume de informações só aumenta! É necessário aprimorar a atenção e aprender a filtrar aquilo que nos serve, descartando o que não presta.

    2 – Quem acredita que abandonar aparelhos como um iPad é uma boa solução para lidar com as consequencias desagradáveis que surgiram junto com as novas tecnologias está totalmente enganado! O mundo exige sim que a nossa velocidade de atualização seja cada vez mais rápida. Se você se considera uma pessoa razoavelmente atualizada preciso dominar pelo menos razoavelmente bem uma ou mais dessas tecnologias. O iPad é uma das mais novas e talvez pela gama de posssibilidades que ela oferece alguns sintam-se assustados ou despreparados para lidar com ela. Gente, não se enganem, isso vai emplacar e daqui a pouco os filhos de vocês vão estar usando iPads na escola, faculdade e etc… Haverá colegas de trabalho fazendo coisas fantásticas com iPads e se a gente vira as costas ou DEVOLVE um “brinquedo” desses, corre o risco sério de ficar mesmo desatualizado MESMO porque essas coisas vieram não para enfeitar mas para FAZER PARTE da nossa vida. Não acreditam em mim? Vou dar um exemplo simples: Bernardo, você tem telefone celular? Aposto que sim. E aposto que todos que postaram comentarios aqui antes de mim tambem tem! O telefone celular de voces manda e recebe emails?? Aposto que o aparelho de telefone da maioria de vocês faz isso. Será que todos vocês sabem usar esse recurso? Muitos, ainda céticos, podem dizer: “Eu não preciso ver emails no celular!” Ema ema ema… pode ter certeza que quando voce comprou seu aparelho, voce pagou por esse recurso e nao usá-lo é como ter uma ferrari e andar a 30 km/h no máximo!!!

    3 – Todo mundo que tem mais de 12 anos de idade hoje não nasceu ainda na Era da Internet. Tivemos que nos realfabetizar digitalmente. Até alguns anos atrás, computador era coisa de Nerd, não era? Pois bem, não são todos de nós que estão lidando bem com essa re-alfabetização. Por exemplo: ter um perfil no facebook ou um blog e imaginar que em qualquer lugar do mundo as pessoas podem ter acesso a voce, te escrever, ver fotos suas e etc parece mais do que assustador para muitos!! Vamos então assumir: muitos de nós ainda não completamos nossa alfabetização digital!!! Prova disso é que muitos aí em cima concordaram e aplaudiram a atitude do Peter de devolver o iPad dele !!! Gente estamos em 2010! Se precisarem, peçam ajuda mas não devolvam um iPad.

    4 – Por último gostaria de deixar mais uma provocação. Essa turma da qual eu falei acima, da galera que tem mais de 12 anos de idade hoje e principalmente quem esta nos seus 30 anos, essa é a turma que literalmente MORDEU A MAÇÃ !! Como muitos de nós estavam na escola, na faculdade ou comecando a carreira profissional, tivemos que nos virar para aprender a mexer com as invençoes novas como notebooks, redes wireless e etc… Mordemos a maçã porque conseguimos aprender isso mais rapidamente do que a geração dos nossos pais e isso nos deu PODER. Poder de acesso, de comunicação, de sociabilização, de agilidade, de criação, de divulgação e aí vai. Não é a toa que vemos coisas como garotos e garotas namorando novinhos, crianças fumando e bebendo e etc… Fazemos coisas que nossos pais nem imaginavam e provavelmente nos proibíam!! Está tudo acelerado, principalmente os pecados. Será que é justamente por termos mordido a maçã que muitos de nós estão ficando Apple-maníacos???

    Peter, você não precisava devolver o seu iPad para passar tempo diário com sua filha. Se você tivesse dado ele para mim, eu te ensinaria com prazer e rapidamente como gerenciar um pouqinho melhor o seu tempo e também como lidar melhor com as maravilhas que a tecnologia nos oferece.

    Super abraço a todos !!

  • http://www.arianemarques.com ArianeMarques

    Oi Bernardo, simplesmente aprovei inteiramente esse texto. Tem muito haver com aquilo que escrevo e com o meu trabalho. Obrigada pelas ideias. visite-me: http://www.ArianeMarques.com. Abraços, Ariane