Tradicionalmente, sou um descrente da política nacional, do tipo que prefere ficar longe da sujeira que ocorre por lá. Mas ao mesmo tempo, sei que é justamente esse pensamento, o de que “ninguém está olhando” é que permite que a corrupção se alastre. Então este ano resolvi começar a levar as eleições a sério. Porque “aqueles que não gostam de política são governados por aqueles que gostam”.

Principalmente porque este ano as coisas mudaram. Os políticos correram para a internet, deslumbrados com o “efeito Obama” dos EUA. Faz sentido. Segundo o IBGE, o acesso de brasileiros na web cresceu 113% das últimas eleições para cá. Não é a internet em si que é capaz de mudar alguma coisa, mas sim o acesso fácil às informações, aliado a algumas ótimas propostas de cidadania política, que vou mostrar neste artigo.

Nós votamos para que mesmo?

Em 2010, votamos para presidente, senador, governador, deputado federal e deputado estadual. São muitos candidatos para diversos cargos, cada um com um jingle pior que o outro, brigando por um espacinho para botar a cara na avenida e conseguir votos.

Não tenha vergonha de não assistir o horário político

Ele é horrível, por um simples motivo: não há nenhuma discussão política ali. O horário político chama o expectador de burro, nivela pelo mínimo denominador comum e acredita que o eleitor não é capaz de entender propostas. O que resta são os candidatos aparecendo falando que “eles são bons e vão cuidar da gente”, tenha dó!

O político é seu empregado

5 meses de salário do brasileiro por ano vão diretamente aos impostos, que entre outras coisas, financiam a política nacional. Você está pagando alguém para decidir sobre o futuro do seu país, e tem o poder de escolher quem. Você vai deixar o seu empregado não trabalhar e ficar no bem bom às custas do seu dinheiro?

Não vote em quem não se leva a sério

Eleição é coisa séria! Os políticos têm o poder de guiar o futuro do país, decidir e votar leis sobre os impostos, liberdade religiosa, independência econômica, investimento em inovação, defesa do meio ambiente, direitos das mulheres, trabalhadores, minorias, e muitas outras coisas. Em tese, os políticos nacionais podem transformar o Brasil em um país completamente diferente e pior.

É um desgosto tremendo ver candidatos brincando com a política. Vocês querem alguém que não se leva a sério, que não apresenta suas convicções, que está lá apenas para fazer a festa, decidindo sobre os temas acima? Pense nisso.

Como escolher os candidatos certos

Sempre tive essa dificuldade. Um interesse em votar com consciência, mas sem saber por onde começar, ou como escolher os candidatos. Então resolvi escrever este artigo.

Partidos são importantes

Geralmente os esforço de marketing são concentrados na figura do candidato, sem dar muita importância ao partido. Mas partidos são importantes por dois motivos: primeiro, que a eleição para deputados no Brasil é por número de cadeiras por estado e por partido. Ou seja, um deputado com muitos votos acaba puxando outros do partido para dentro da Câmara.  E segundo, porque os políticos costumam “votar em bando” nos partidos, para o bem ou para o mal.

Não vote em quem comete crime eleitoral

Se o sujeito não respeita a lei nem enquanto é candidato, imagine quando for eleito. Não vote em quem envia SPAM para o seu e-mail sem perguntar. Não vote em quem faz chuva de panfletos e emporcalha a cidade (Obs: no panfleto é possível que tenha mais de um candidato. Geralmente o responsável pela besteira é a ponta mais fraca, geralmente o deputado). Não vote em quem faz propaganda eleitoral irregular. Clique aqui para saber o que pode e o que não pode.

No Eleitor2010 e no Sem Sujeira você acompanha quem está cometendo crime eleitoral e emporcalhando a cidade.

Escolhendo o seu presidente

Para escolher o presidente, por um momento tente esquecer a cara dos candidatos e pense em suas convicções políticas. Se você acredita em um Estado pesado, com alta carga tributária, decidindo os rumos da economia, ou seja, a política influenciando no mercado, o seu voto é de um lado.

Se por outro lado você acredita que a indústria, o comércio e a economia são capazes de auto-regulamentação, com um controle leve por parte da política, seu voto é outro. Enquanto um lado diz que um “vendeu as estatais a preço de banana”, o outro dirá que “elas cresceram, e o que pagam de impostos hoje supera muito a arrecadação enquanto era pública”.

Não existe voto errado. Errado é não saber suas convicções políticas, e votar no candidato pela sua cara.

São 9 candidatos, para minha sanidade vou me ater aos 4 com mais indicações de voto até o momento. Para escolher seu presidente faça o seguinte:

  1. Olhe os sites dos candidatos, e entenda as convicções e bandeiras de cada um:
    http://www.serra45.com.br/
    http://www.dilma13.com.br/
    http://www.minhamarina.org.br/
    http://www.plinio50.com.br/
  2. Faça o teste de afinidade política da Veja: http://veja.abril.com.br/eleicoes/eleicoes-2010-teste-candidatos-pensa-voce.shtml
  3. Assista aos debates, e veja quem está mais preparado para assumir a direção do país: http://eleicoes.uol.com.br/2010/debate-candidatos-a-presidente/
  4. Veja as entrevistas dos presidenciáveis ao jornal da Globo e ao Jornal Nacional: http://g1.globo.com/especiais/eleicoes-2010/ (no final da página)

Por último, gostaria de deixar uma coisa clara: no primeiro turno das primeiras eleições, não existe essa de votar em um para outro não ganhar. Imaginemos a Dilma com 51% dos votos. Se sou contra a Dilma, eu votar na Marina ou no Serra não faz diferença, porque o meu voto não elimina nada da porcentagem da Dilma. Então, no primeiro turno, vote em quem você acredita.

Escolhendo o governador

Aqui vou falar do estado de São Paulo, mas não é difícil aplicar esses passos aos outros estados.

  1. Olhe os sites dos candidatos, e entenda as bandeiras e convicções de cada um:
    http://www.geraldo45.org.br/
    http://www.mercadante13.com.br/
    http://www.celsorussomanno.com.br/
    http://skaf.com.br/
    http://ffgovernador.com.br/
  2. Assista aos debates, e veja quem está mais preparado para assumir a direção do estado: http://eleicoes.uol.com.br/2010/sao-paulo/debate-candidatos/governador/
  3. Acompanhe as entrevistas com cada um dos candidatos.
    Alckmin no SPTV
    Mercadante no SPTV
    Russomano no SPTV
    Skaf no SPTV

Escolhendo deputados federais e deputados estaduais

Em tese, os deputados são os responsáveis por ouvir os anseios da população e elaborar, votar e discutir projetos de lei e ações em benefícios dos cidadãos que representa. Votam nas questões críticas que nos interessam que citei no começo do artigo.

Deputados também são capazes de conquistar verbas para projetos específicos, como melhoria da infraestrutura de municípios, eventos culturais, entre outros. Os deputados agem em parceria com prefeitos, governadores e demais políticos para movimentar o dinheiro público em prol da população.

Como são muitos os candidatos, você pode fazer o primeiro filtro de três modos:

  1. Filtrar por partido
    Escolha os partidos de sua preferência, e descubra os nomes dos candidatos pelo seu estado. Você pode acessar o site do partido, ou consultar o site do STE, clicando no estado, depois no cargo, depois em “aptos”: http://divulgacand2010.tse.jus.br/divulgacand2010/
  2. Por região.
    É muito interessante que o seus candidatos a deputado conheçam a sua cidade, ou tenha parcerias políticas, pois são peças importantes na conquista de recursos ao município.
    Nesse caso, não tem como resolver pela internet. Cabe olhar a propaganda em sua cidade, e anotar os nomes para consultar na internet depois.
  3. Por afinidade política
    Há atualmente dois sites que calculam a afinidade com deputados. Funcionam da mesma forma: após responder uma série de questões políticas, mostram uma lista dos candidatos que responderam do mesmo modo que você.
    http://www.votoaberto.com.br/extratoparlamentar/
    http://repolitica.com.br/

O site Vote na Web também serve para avaliar políticos. Lá você consegue ver como os deputados votaram nos principais projetos de lei dos últimos anos.

Feito esse primeiro filtro, o trabalho é manual. Faça três coisas para terminar de filtrar o candidato:

  1. Veja como ele votou no Ficha Limpa, aquiaqui.
  2. Veja se o candidato tem denúncias contra ele no Congresso em Foco.
  3. Consulte os sites dos políticos, procure seus nomes nas notícias, acompanhe-os nessa reta final. E tenha também um candidato de backup, caso o seu escolhido faça alguma besteira nesses últimos dias como emporcalhar a rua com santinhos.

Escolhendo os senadores

Assim como a Câmara dos Deputados, os senadores têm funções legislativas, de caráter mais geral. Cabe ao senado processar e  julgar o presidente, escolher ministros do Tribunal de Contas e autorizar operações externas de natureza financeira, ou seja, dívida externa.

Senadores são eleitos por estado. São três para cada estado, com mandatos de 8 anos. Ou seja, você deve escolher agora um dos senadores que representará seu estado. São Paulo tem 15 candidatos, segundo o TSE.

Para escolher seu senador,

  1. Filtrar por partido
    Acesse a lista no TSE, ou se preferir esta lista no UOL, que inclui os candidatos que desistiram (Toni Curiati, João Dorta e Quércia).
  2. Filtrar por afinidade política
    Estes dois sites calculam sua afinidade com os candidatos a senadores, por meio de perguntas:
    http://www.questaopublica.org.br/
    http://repolitica.com.br/

Após escolher três ou quatro nomes, procure os sites dos candidatos, consulte seus nomes nas notícias, acompanhe-os nessa reta final.

O que acontece depois?

Lembra que o político é seu empregado? Então faça ele trabalhar! Se votar com consciência, acompanhe a trajetória do político. Mande e-mail com sua opinião sobre os assuntos que interessam que estiverem em pauta na câmara, acompanhe sua presença, vale até cadastrar para receber alertas do Google com o nome do político para ver o que anda fazendo.

Acompanhar o que os políticos andam fazendo é a proposta do Eu Lembro, mas até a publicação deste artigo, o site estava em manutenção. Vale a pena dar uma espiada por lá.

Um pouco sobre mim e… COPIE ESSE ARTIGO!

Meu nome é Rodrigo van Kampen, sou jornalista, e acredito que a melhor forma de manter a imparcialidade é declarando minha posição, confiando na capacidade de julgar do leitor. Tenho convicções de direita moderada, sou a favor do estado mínimo, maior liberdade econômica e contra o assistencialismo.

Copie este artigo! Este texto (apenas esse texto) está distribuído sob a licença Creative Commons, portanto você é livre para copiá-lo, editar e republicar onde quiser. Se este texto conseguir se espalhar, podemos fazer uma eleição melhor.  Republique em seu blog, envie por e-mail para seus contatos ou poste no Twitter o link deste blog. A única coisa que peço é que mantenha meu nome.

Nota do editor

Esse post estava agendado para entrar hoje já a alguns dias, mas me senti compelido a vir aqui e colocar uma nota adicional depois de ler o texto “As verdades e mentiras do spam eleitoral” feito pela Bia Kunze (do blog Garota Sem Fio) e publicado no Tecnoblog. O texto fala um pouco sobre as verdades e mentiras dos os boatos que circulam na internet na época das eleições, tal como “Uma eleição poderá ser anulada se mais da metade dos votos forem nulos.” ou ainda “Neste ano, você poderá votar para presidente mesmo que não esteja na cidade onde você vota.”.

É muito falatório e muita gente fica perdida em meio a tanta informação (algumas corretas, outras incorretas). Sendo assim, recomendo fortemente a leitura do post da Bia para que você saiba de uma vez por todas o que é verdade e o que é mentira em meio a tantos boatos. Clique aqui para ler o texto.

About The Author

Rodrigo van Kampen é graduando em jornalismo pela Unesp-Bauru, e trabalha em assessoria de imprensa. É autor do blog Peixe Fresco (www.peixefresco.net), no qual trata de comunicação e produtividade.

  • Renne Rocha

    Sugerir o site da Veja como um local adequado para “testar” com qual candidato que você está mais “afinado politicamente” é uma piada de mal gosto.
    Um teste de uma revista claramente anti-PT não pode ser considerado isento. Eles pegam a melhor resposta de um candidato sobre um tema e a pior resposta do outro… é lógico que um dos candidatos vai acabar sendo favorecido…

  • http://www.repolitica.com.br Rodrigo Rego

    Parabéns pelo post. Acho que de todos que eu vi com guias sobre como votar, este foi o mais completo. E fico honrado com a indicação do Repolítica, que ajudei a criar, em meio a outras boas dicas e bons conselhos.

    Só faço a complementação de que o teste de afinidade do Repolítica vale para todos os cargos, também governador e presidente. Como nos baseamos nas opiniões da própria comunidade, temos a vantagem de ter perfis de todos os candidatos, montados colaborativamente, para qualquer cargo, tenham tido eles mandatos prévios ou não.

    Aliás, todos podem contribuir com suas opiniões sobre as qualidades, prioridades e ideologias de cada candidato, ajudando a montar os respectivos perfis.

    Um abraço!

  • http://www.seresteros.com/neo Darcio

    Parabéns, Rodrigo, as dicas são muito bacanas, vou linkar no meu blog.

    Renne,
    Fiz o teste da Veja, e de fato algumas das frases escolhidas são bastante tendenciosas. Mas achei interessante, apesar de não gostar dos rumos que a revista tomou.

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