Só agora estou lendo o livro “Virando a própria mesa” do Ricardo Semler e mesmo depois de ler “Você está louco!“, o Ricardo me surpreende. Deixe-me explicar…
O livro “Você está louco!” conta algumas histórias da vida administrativa do Ricardo. As histórias são sensacionais e nos fazem refletir muito. Só que na primeira parte do “Virando a própria mesa”, ele aborda essas mesmas histórias de forma muito superficial. Fiquei bem decepcionado.
Como eu não sou de desistir fácil, continuei lendo e fiquei muito surpreso em ver que essa primeira parte era apenas uma introdução para situar o leitor para o que estava por vir: uma abordagem sobre os seus pensamentos e ideais administrativos.
Estava errado ao pensar que fiz mal em ler o segundo livro antes do primeiro. A ordem de leitura não influencia em quase nada.
Mas isso aqui não é uma resenha do livro. O que eu quero realmente compartilhar com vocês é um trecho do livro que me deixou com a pulga atrás da orelha. Vou transcrevê-lo para vocês (página 70/71):
“Não vou fazer aqui a apologia da necessidade de planejamento. Há inúmeros livros que fazem isto com maestria. Tampouco vou discutir planejamento estratégico de portifólio e metodologias informais de planejamento.
Por sinal, se planejamento é uma forma de pensar (pensar no futuro, contrapondo-o ao presente), defender planejamento é igual a defender o pensar, portanto, exercício desnecessário.
O que merece atenção é saber de quem é a responsabilidade de planejar numa organização. Quem deve estar pensando? Se levarmos em conta que não é possível pensar no futuro e executar o presente simultaneamente, como é que se faz?
Data dos anos 70 a mania americana (logo espalhada pela Europa e depois para “nosotros muchachos latino-americanos”) de achar que, uma vez que as pessoas que estavam executando não tinham tempo de pensar, montariam uma estrutura à parte na empresa que só faria pensar e planejar o dia inteiro.
Este processo envolveu a criação de áreas completas de planejamento estratégico em quase todas as grandes e médias empresas norte-americanas (e milhares delas na Europa e em outros continentes). Especialistas em planejamento - na maioria das vezes economistas e administradores - se reportavam à alta cúpula da empresa, boa parte ao próprio presidente. A função deles era a de coletar dados de dentro da empresa e do mercado, e juntar isso em relatórios, estratagemas e programas para o futuro.
Cada um desses estudos, para mostrar que o pessoalzinho da área andou ocupado, costumava conter algumas dezenas ou até centenas de páginas de demonstração da situação atual, situação do mercado, tendências macroeconômicas do segmento, do setor, do país, do mundo, do universo e da galáxia. Sempre acompanhados de algumas dúzias de gráficos e quadros estatísticos, regressões analíticas e teorias evolucionistas de Darwin.
O pobre presidente da empresa, que havia chegado aonde chegou por puro bom senso e simplicidade, ficava tão perplexo e embasbacado com aquilo tudo que acabava aprovando uma boa parte dos planos. Depois, apresentava com satisfação irônica os mesmos relatórios ao seu Conselho de Administração, sabendo que seus membros também nada questionariam.
Além de se prestar ao escoamento dos formandos dos cursos de MBA (mestrado em administração de empresas) nos EUA, esta experiência de planejamento serviu para muito pouco. O espantoso é que ainda há inúmeras empresas nos EUA e Europa que tem esses departamentos funcionando a toda, e a notícia desagradável é que só agora algumas boas empresas nacionais estão adotando esse conceito equivocado e obsoleto, como se fosse novidade. As áreas de planejamento, Diretorias de Planejamento, Vice-Presidências de Planejamento Estratégico e planejadores oficiais que estão surgindo no Brasil nos últimos anos são uma triste homenagem ao “eu - também” das técnicas de administração importadas e que chegam aqui com tanto atraso que já estão sendo abandonadas nos seus países de origem.”
Até que ponto ter um setor específico para tratar de planejamento estratégico influencia na empresa? Será que essa forma é a certa ou existem outras formas melhores?
O trecho seguinte do livro nos abre um pouco a mente (página 71/72).
“Se quem executa não tem tempo para planejar, então o canhão está virado para a mosca quando se cria um departamento cuja maior característica é ter tempo para pensar. O canhão tem de ser apontado para o inimigo, que é a falta de tempo.
Só quem vive o dia-a-dia do negócio e tem experiência específica na área pode planejar. Mas ele não precisa dos dados para pensar? Não precisa de catalisadores para refletir sobre o futuro? Precisa, e estes podem ser obtidos de muitas formas, desde consultoria até assinaturas de revistas e estudos de tendências do futuro. Em último caso, um departamento que colete, mecanize e distribua a informação e as tendências. Contanto que apenas manipule a informação a quem for de direito. No caso, o executor.
Treinar o executor para pensar no futuro é válido. Montar um departamento para pensar pela organização toda é contraproducente. Além de não gerar posições simples e confortáveis, como seria necessário, marginaliza e aliena o executor do processo de planejamento. Acaba absolvendo-o do futuro de sua área e lhe concede a confortável posição de somente criticar os erros de planejamento que foram feitos por outros.”
Uma visão muito interessante. É fácil criticar os erros/ações dos outros, não é mesmo? O problema é quando estamos numa posição que temos que tomar decisões importantíssimas, sofrendo pressão de todos os lados e com prazo curtíssimo para pensar. Criticar é fácil…
Meu objetivo hoje é colocar você para pensar. Não coloque terceiros para fazer o seu trabalho. Lembre-se: se quer bem feito, faça você mesmo.



